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Terça-feira, Agosto 23, 2011

12 humanos e nenhum segredo


“Por que nos acostumamos à rapinagem das privatizações, que provocaram a perda da solidariedade, da responsabilidade, da ajuda mútua...? Os setores mais doentios e perversos de nossa sociedade vieram à tona enquanto nós -talvez por medo de enfrentar a realidade de nossas vidas- nos dedicávamos com grande prazer a todo tipo de coisas concebidas para embrutecer nossos sentidos e ocultar essa realidade. ... deixamos que a televisão comercial preenchesse o vazio em nossa consciência coletiva e passamos a nos definir em função de lutas pela sobrevivência e comportamentos predadores; a atacarmo-nos uns aos outros sem piedade e a depreciar qualquer um que se mostrasse mais frágil, diferente ou menos belo, menos rico ou menos preparado. ...Ao final das contas, em um clima de cobiça e egoísmo, como não haveríamos de agredir e pulverizar o outro se é isso, precisamente, o quê nos ensinam a todo instante: salve-se quem puder. Quanto mais nos deprimíamos negando, cem cessar, a realidade, mais instigávamos a opressão, a manipulação e o embrutecimento de nossos sentidos e, desse modo, fomos nos convertendo em vítimas.”
David Grossman escritor[2]
 
“A natureza não pode ser reduzida a entidades fundamentais, a blocos de construção, mas deve ser entendida por completo com base na autoconsistência. As coisas existem em virtude de suas relações.” Geoffrey Chew físico[3]
 
“A estrutura da natureza e a estrutura da mente são reflexos uma da outra. Mente e natureza são necessariamente uma unidade.”
Gregory Bateson antropólogo[4]
 
“O comportamento do paciente é parte de uma rede muito mais ampla de comportamentos perturbados, de padrões perturbados e perturbadores de comunicação. Não existe uma pessoa esquizofrênica; existe apenas um sistema esquizofrênico. Os místicos e os esquizofrênicos estão no mesmo oceano, mas os místicos nadam, os esquizofrênicos se afogam.”
Ronald D. Laing psiquiatra[5]
 
“Nos tornamos tão obcecados pelo conhecimento racional, a objetividade e a quantificação, que sentimos extrema insegurança ao lidarmos com a experiência e os valores humanos.”
Margaret Lock médica e antropóloga[6]
 
“A questão do estresse emocional, a retenção de emoções é um fator crucial no desenvolvimento do câncer em geral, e do câncer do pulmão em particular. Se recebo estímulos alarmantes e não expresso nada, estou obstruindo o fluxo de energia.”
Carl Simonton médico oncologista[7]
 
“A idéia de que possa haver um crescimento patológico, prejudicial, destrutivo e acelerador é, para o economista moderno, uma idéia pervertida que não deve jamais vir à tona. Ao contrário de todos os sistemas naturais –que se equilibram, se ajustam e se purificam por si mesmos– nosso pensamento econômico e tecnológico não admite nenhum princípio de auto-limitação. A sabedoria exige uma nova orientação da ciência e da tecnologia em direção àquilo que é orgânico, brando, não-violento, terno e belo.” E.F.Schumaker economista[8]
 
“Déficits e endividamentos generalizados, destruição incessante do meio ambiente, persistência da pobreza em meio ao progresso, lucros pessoais obtidos às custas do prejuízo público, conceitos de eficiência e produtividade distorcidos... Eficiente para quem? ...indivíduo, empresa, sociedade ou ecossistema?... A economia glorificou algumas de nossas predisposições menos louváveis: cobiça material, competitividade, gula, orgulho, egoísmo, imprevidência e ganância pura e simples. A consciência masculina que domina nossa cultura encontrou sua realização num tipo de tecnologia machista, voltada para a manipulação e o controle, e não para a cooperação. As origens da economia moderna coincidem com as da ciência newtoniana. Naqueles tempos, o raciocínio crítico, o empirismo e o individualismo tornaram-se os valores dominantes. A lei da oferta e da procura também se encaixava muito bem com a noção matemática de Newton, o cálculo diferencial... Hoje em dia, empresas gigantescas controlam a oferta de bens, criam demandas artificiais por meio da publicidade, e exercem uma influência decisiva nas políticas nacionais. Mercados livres, equilibrados pela oferta e procura... só existem na cabeça de Milton Friedman.”
Hazel Anderson ativista social[9]
 
“…guerras, rebeliões, golpes, guerrilhas, greves, guetos, enormes diferenças no acesso às vantagens econômicas e educativas, difundem seus efeitos dilaceradores através de toda a ordem social. Como se isso não fosse suficiente, o cidadão comum é acossado pelo balanço de pagamentos desfavorável, drogas, alienação, aumento populacional acelerado, remodelagem arbitrária da superfície terrestre com o desvio de rios, aplainamento de montanhas, derrubada de florestas, abertura de túneis sob a terra e a água, capeamento do solo com cimento e asfalto…Mesmo os conservadores se apercebem da ruína iminente, mas os interesses comerciais lutam cada vez mais por uma oportunidade de auferir lucros. …medidas de força só podem suprimir os sintomas, sem alterar suas causas… e o desespero cresce à medida que se torna evidente a inoperância dos remédios policiais e militares para os males sociais do nosso tempo. Só a compreensão é o primeiro passo para a ação racional.… só combinando outras perspectivas com a nossa própria, poderemos distinguir entre a verdade e a distorção e alcançar, finalmente, uma compreensão realista do processo civilizatório. A conquista de tal percepção é crucial para a existência humana.”
Betty J. Meggers arqueóloga [10]
 
“O sistema capitalista global gerou um campo de jogo muito desigual. A distância entre ricos e pobres está aumentando. Isso é um perigo, pois um sistema que não oferece alguma esperança e benefícios aos perdedores, corre o risco de ver-se dilacerado por atos de desespero.”
George Soros financista e mega-investidor[11]
 
“As regras do Jogo são as da acumulação de riqueza obtida no mercado mediante a competição feroz entre empresas, Estados e indivíduos. Em sua roupagem neoliberal, este jogo pressupõe a violação permanente e sistemática das regras, no estabelecimento de relações entre o poder e o dinheiro destinadas a remover quaisquer obstáculos à acumulação comandada pela grande empresa e pelo capital financeiro internacionalizado, sempre apoiados na força militar e política do Estado imperial.”
Luiz Gonzaga Belluzzo economista[12]
 
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[1] “Para se ter alegria é necessário compartilhá-la.” lord Byron

[2] em jornal El País p. 2 Una ventana a un futuro diferente domingo 7 de agosto de 2011

[3] Fritjof Capra Sabedoria Incomum p 41ed. Cultrix São Paulo, SP 1990

[4] op. cit. p 66

[5] id. p. 105-106

[6] id. p. 139

[7] id. p. 159-162

[8] id. p. 171-172

[9] id. p. 192-203

[10] prólogo à edição estadunidense do livro O Processo Civilizatório de Darcy Ribeiro (1968) ed. Cia. Das Letras, São Paulo, SP 1997

[11] em A Crise do Capitalismo ed.Campus 1999

[12] em Democracia e capitalismo Folha de São Paulo p. B2 4 ago. 2002

Sexta-feira, Agosto 12, 2011

Pra quê se preocupar!


Pra quê se preocupar?
Homero Mattos Jr.

Existem histórias que se contam mundialmente sobre a humanidade. Estão nos filmes de Hollywood ou na televisão americana, a televisão dominante. Para mim, um dos grandes desafios é contar histórias alternativas, que nos permitam imaginar as coisas de uma outra maneira. Temos que ser capazes de dizer que há outros mundos possíveis de se imaginar e, principalmente, sonhar.
Ariel Dorfman
escritor chileno autor de Para ler o Pato Donald


Melhor é a Quietude, sinceramente creio. Mas diante da eventual impossibilidade de permitir que As Coisas sigam por si mesmas o caminho que lhes é próprio, melhor, então, sobre o caminho imposto às Coisas, refletir.
Penso sobre a Propaganda tal qual Muhammad Yunus pensa sobre o Mercado: não há nada de errado com a Propaganda em si mesma, mas, sim, com os modos de utilizá-la. E destes modos o mais preocupante me parece ser o cinismo. Refiro-me à atitude anything goes tão maciça e devastadoramente em voga nas últimas três décadas.
É certo que, atualmente, não só a Propaganda é cínica (ela nada mais faz do que seguir o trend'...). Porém, o poder de propagação impõe à Propaganda (tanto quanto ao Jornalismo) reflexões mais cuidadosas. Por exemplo entre muitos, a atual campanha de uma companhia de seguros a veicular a mensagem: -Pra quê se preocupar? ...!?!... Pôxa! Poucas expressões poderiam ser mais eficazes no sentido de contribuir para uma perpetuação da consciência retrógrada (quando não, inexistente) face ao imperativo de mudarmos nossos hábitos e paradigmas individualistas que, hoje visivelmente, ameaçam a vida humana sobre a Terra. Além de cinismo, não é por demais inconsequente sugerir às pessoas algo do tipo: não se preocupe com o Efeito Estufa caso possa desfrutar o privilégio de usufruir um (fantástico?...) aparelho de ar condicionado?
Mais do que seguir um trend penso que os publicitários deveriam ousar formar um trend, capaz de contribuir para uma elevação do nível da consciência coletiva. E ao dizer ousar não tenho vistas à vontade nem tampouco a criatividade dos profissionais da Criação, mas à duradoura mesmice a que se entregam -na imensa maioria das vezes- os Clientes, a Diretoria e o Atendimento -estes últimos poucas vezes dispostos a contra-argumentar com os primeiros. Contudo, tal ortodoxia é compreensível. Mas não aceitável.
Genericamente, o dilema moral dos publicitários é o mesmo de todos nós: ser ou não ser.
Especificamente, o campo moral dos publicitários é o mesmo dos jornalistas: qual o sentido (i.e direção) e qual o significado (i.e espaço) do conteúdo a ser propagado?
Bem, mas sobre isso, e mais, já disse Olivieri Toscani em A Publicidade É Um Cadáver Que Nos Sorri.
Não sei se a Propaganda é um cadáver. Mas, receio, se alguns publicitários ainda não o são, estão em vias de tornarem-se.
Talvez algum dia a Propaganda faça, também -tal qual hoje está a ocorrer em toda parte, sua Revolução.
A ver.


Terça-feira, Agosto 09, 2011

Moloch e a pedra de Sísifo


Homero Mattos Jr.

Segue, abaixo, um trecho da conferência de Günter Grass à Associação Alemã de Jornalistas, publicada na íntegra na edição dominical do jornal espanhol El País.

O mito (grego) de Sísifo é mais um de seus congêneres a ilustrar o inconformismo humano diante da vontade dos deuses, estes nem sempre ao par com nossas expectativas sobre o quê é ou como deveria ser a vida.
Sísifo (“o mais solerte e audacioso dos mortais ”)[1] consegue enganar a Morte (duas vezes!) até que esta, finalmente, o captura e, pela ousadia, o condena a rolar eternamente um bloco de pedra montanha acima. Eternamente por quanto ao chegar no cume da montanha o bloco, sempre, volta a rolar montanha abaixo...

Günter Grass, na mencionada conferência, remete à Sísifo por conta de uma citação de Albert Camus relativa à importância “da luta”: “Há que imaginar-se a Sísifo, feliz.” Certo. É uma interpretação. Boa e plausível. Afinal é Camus. Contudo, a pedra de Sísifo pode significar, também, a própria Morte e, neste caso, seu contínuo rolar sugere algo como o samsara dos hindus. Daí, talvez -de uma interpretação subjetiva- a preferência pela imagem do deus Moloch para ilustrar esta breve apresentação de palavras selecionadas de Günter Grass.
Ao citar Moloch (e não Murdoch...) Grass o faz dentro de um contexto no qual, claramente, a mais conhecida das características de Moloch se mostra adequada no sentido de propiciar à platéia melhor introjeção de uma característica dos deuses contemporâneos: engolir as crianças (metafóricas e reais) da própria sociedade que os louva.
Com a palavra, a seguir, Günter Grass.
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[1] Junito de Souza Brandão Mitologia Grega vol. I p. 226 3a. edição ed. Vozes Petrópolis RJ 1987



A pedra de Sísifo
Günter Grass (Nobel de Literatura 1999)
excertos[1]

“...representações de interesse, ou lobbies, em uma sociedade considerada pluralista... Esses lobbies, com sua ganância, existem e visam a República... grupos da indústria farmacêutica ... seguros de saúde... até hoje impedem uma reforma socialmente sustentável na Saúde Pública. Não em último lugar estão os todo-poderosos bancos, cuja atividade extorsiva toma como refém o Parlamento e o Governo. Os bancos apresentam-se como um destino inevitável. Eles têm vida própria. Seus conselhos de administração e os principais acionistas estão organizados como uma sociedade paralela. Ao final as conseqüências de uma gestão financeira baseada no risco hão de recair sobre o contribuinte. Somos nós a responder pelos bancos cujas bocas bilionárias jamais se dão por saciadas.
Naturalmente também os jornais e revistas, isto é, os jornalistas, estão expostos a essa onipotência. Não há necessidade de nenhuma censura à moda antiga, basta, apenas, a mera concessão ou negação de anúncios para chantagear uma imprensa cuja existência (de qualquer modo) encontra-se ameaçada. No entanto, a despeito dos pactos-de-silêncio subliminares, será necessário chegar ao fundo das coisas através de um jornalismo consciente e informar o público sobre o ilegítimo exercício de poder dos lobbistas.
Também não é aceitável que políticos (de alto nível inclusive) tão logo deixem seus mandatos públicos, passem a ocupar cargos de direção e generosamente remunerados em consórcios, associações ou grupos de interesse privado. ... saber que o Sr. X -que por muito tempo trabalhou em um Ministério Federal e em seguida no Banco Central- atenderá ao elogioso convite que lhe faz uma associação nacional de empresários... [ora!] A condição de insider do Sr. X beneficiará ainda mais um grupamento já poderoso. Esta e outras mudanças de posições ilustram situações claramente abusivas.
O desvio desagregador em direção a uma sociedade de classes com uma maioria a empobrecer e uma minoria rica separando-se aos poucos; incapacidade e impotência dos parlamentares eleitos diante do poder concentrado dos grupos de interesse e o arrocho imposto pelos bancos tornam urgente a realização de algo até agora impronunciável: colocar em discussão o modelo do sistema. ... trata-se de, a partir de toda a sociedade, formular questões reivindicativas. ?É aceitável -mesmo em um sistema capitalista democrático- que uma economia financeira em larga medida dissociada da economia real possa ameaçar a sociedade com as crises que fabrica? Devemos aceitar como válidas para nós questões de fé como: mercado, consumo e lucro ?
Para mim, em qualquer caso, está claro que o sistema capitalista, fomentado pelo neoliberalismo e sem alternativa, tal como agora se apresenta, se degenerou em uma máquina de destruição do capital e, distante da (em outros tempos) bem sucedida economia social de mercado, tornou-se um Moloch: consome os rebentos da economia real apenas para satisfazer um apetite a-social e impossível de ser refreado por qualquer lei.
Então, surge a pergunta: o modelo de sociedade que escolhemos, isto é, a democracia parlamentar... ?ainda tem a força e a vontade necessárias para evitar o processo de desintegração ao qual encontra-se submetida? Ou, doravante, deverá ser relegada qualquer tentativa de reforma e de controle dos bancos e seus métodos de administrar o capital, quero dizer: obrigá-los a trabalhar para o bem comum...
Uma coisa parece certa: se as democracias ocidentais demonstrarem-se incapazes de realizar as reformas fundamentais necessárias para enfrentar os perigos concretos e iminentes (bem como os previsíveis), não poderão suportar o quê, nos próximos anos, será inevitável: crises a produzir outras crises, aumento incontrolável da população mundial, fluxos de refugiados desencadeados pela falta de água, fome, empobrecimento, e mudanças climáticas provocadas pela ação humana. E, entre tantas ocorrências desastrosas, uma quebra da ordem democrática propiciaria –e neste sentido não nos faltam exemplos- um vazio que poderá ser ocupado por forças cujos possíveis perfis ultrapassam nossa imaginação, por mais que sejamos gatos escaldados e marcados pelas consequências ainda visíveis do fascismo e do stalinismo.
Suponho que essas idéias possam ser adequadas para definir o trabalho dos jornalistas.
... a existência da humanidade sobre este planeta azul é fato recente e nossa continuidade depende do que fizermos ou deixarmos de fazer. Somos responsáveis pelo planeta e nossa condição de vida. O temos espoliado e desfigurado muito, de modo a deixar para nossos descendentes uma herança inevitável. De tal modo que se impõe reconhecermos e identificarmos essas e outras verdades.”
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[1] de conferência proferida em Hamburgo (02. 07. 2011) e publicada na íntegra no jornal espanhol El País Domingo p.10/11(24.07.2011). Traduzidos da versão espanhola realizada por Miguel Saénz.




Quarta-feira, Julho 27, 2011

A Idade Mídia

“As notas curtas provaram ser exatamente aquilo que um novo público -de educação rudimentar, em busca de informação condensada e facilmente assimilável- queria. (...) eram eles que iriam formar o mercado para os bens de consumo barato. Todas as notícias e artigos eram curtos. As reportagens políticas eram reduzidas a pequenas notícias meramente informativas ou sensacionais. (...) Um grande espaço vinha dedicado às 'fofocas' sobre homens e mulheres de destaque, pois era uma regra da direção que os leitores estavam mais interessados em gente do que em princípios. (...) A importância não residia em sua preocupação com os leitores de educação deficiente, mas na percepção de como este público poderia ser explorado comercialmente. ...Ele (Northcliffe) percebeu que um grande número de leitores com pouca educação, vivendo uma existência difícil e penosa, não queria que espelhassem a realidade, mas que fornecessem algo mais que a vida do dia-a-dia. ...foi o primeiro de uma série de magnatas da imprensa que explorou a influência da imprensa para servir a seus objetivos pessoais.”[1]
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[1] referência às linhas editoriais dos jornais Daily Mail (inglês) e New York Journal (estadunidense) no final do séc. XIX e começo do séc. XX
lord Francis Williams, A Era de Hearst e Northcliffe, História do Século XX vol. I 1900/1914 pp. 3-5 ed. Abril Cultural São Paulo SP 1968


A Idade Mídia
e a construção da ‘realidade’.
Homero Mattos Jr.
Queda de Gigantes de Ken Follett não é uma obra-prima da Literatura. Certamente não é. Mas ler suas páginas é uma maneira agradável de conhecer algo sobre a História dos eventos que, logo ao início do século XX, haveriam de moldar as feições de um período cujo declínio futuros historiadores, talvez, venham a situar em algum momento entre o fim da paridade dólar/ouro em 1971 e as consequências (a médio prazo) do ataque ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001.

Para os apreciadores de uma leitura leve e 'movimentada' Ken Follett, como de costume, além de escrever cinematograficamente oferece o bônus de situar os personagens de suas estórias (declaradamente fictícias) em meio às realidades históricas por ele (comprovadamente) pesquisadas. Método oposto, portanto e ao que parece, aos utilizados pelos founding fathers da imprensa sensacionalista a desempenhar decisivo protagonismo nos eventos narrados em Queda de Gigantes.

Poucos meses antes do término da Primeira Guerra (1914/1918) ainda não havia vencedores, uma vez que o esforço de guerra exaurira igualmente as energias (e os cofres) de todas as partes em luta. E, nesse momento, o grande temor das classes dirigentes inglesas e francesas não era mais a Alemanha e sim a Rússia. Tal como ocorrera às potências imperiais à época da Revolução Francesa, a possibilidade de amplo contágio dos ideais revolucionários russos por entre a classe trabalhadora deveria ser eliminada. Primeiro em casa e depois na origem. Não por acaso já em 1919, ao mesmo tempo em que realizavam a Conferência de Paz, as potências vencedoras criaram a Organização Internacional do Trabalho e, em seguida (sem divulgação pública nem reconhecimento oficial do fato) invadiram a Rússia por todos os lados. Literalmente. Tal façanha não teria sido possível sem a omissão (voluntária) dos jornais sensacionalistas de lord Norhtcliffe. Omissão e ação.
Considere-se que a seis meses do final da guerra, a paz era tão desejável para os alemães como o era para a imensa maioria dos demais europeus. Porém, à Alemanha interessava a paz nos termos dos 14 Pontos propostos pelo presidente Woodrow Wilson dos E.U.A, ou seja: um armistício sem reparações e com retorno às fronteiras anteriores a agosto de 1914. Contudo, aos industriais e militares franceses importava recuperar territórios perdidos para a Alemanha em 1870 e at last but not at least aos arruinados governos e banqueiros de todos os lados do conflito, se não houvessem reparações...?... quem haveria de pagar as enormes dívidas contraídas junto aos bancos estadunidenses?...

Ao final da guerra “as pessoas tinham necessidade de culpar alguém e os jornais estavam sempre dispostos a suprir esta necessidade” e porque os grandes proprietários destes jornais “realmente acreditavam nas bobagens que publicavam” uma campanha de ódio insuflava “as chamas da vingança” mediante edição, em letras garrafais, de manchetes provocativas como, por exemplo:
OS HUNOS (i.e os alemães) TÊM QUE PAGAR!

Ao impedir a ascenção dos Trabalhistas ao governo os “efeitos da malévola propaganda do jornal Daily Mail sobre as eleições”[2] britânicas de outubro de 1918 contribuíram para a elaboração dos termos degradantes do punitivo Tratado de Versalhes que, como se sabe, adubou as sementes da Segunda Guerra Mundial -na verdade, para muitos historiadores, uma continuação da Primeira.
E assim foi.
Sem contar com a simpatia do gigantesco complexo industrial-financeiro criado pelos robber barons (barões ladrões)[3] do final do século XIX, Woodrow Wilson não conseguiu levar adiante suas propostas para a paz e, desse modo, estabeleceram-se os fundamentos da “exuberância dos mercados” que haveriam de consagrar Alan Greenspan e entusiasmar a muitos. Aqui inclusive.
Quanto a lord Northcliffe, morreu em 1922 após um colapso nervoso -fazendo jus às palavras do jornalista e comentarista Will Hutton do jornal The Observer: Aqueles a quem os deuses querem destruir eles, primeiro, o enlouquecem.

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[2] Ken Follett, Fall of Giants p. 754/755 McMillan London 2010
(em Português: Queda de Gigantes ed. Sextante Rio de Janeiro 2010)

[3] ver Charles R. Morris Os Magnatas vol. 745 col. L&PM Pocket Porto Alegre RGS 2009



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Quarta-feira, Junho 29, 2011

A Terra dos Mil Povos


Contudo a terra em si... o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
Pero Vaz de Caminha (1500)

…descobrindo-lhes tantas e tão grandes terras e tão férteis e tão agradáveis… com outros grandes bens de que nunca se tenha ouvido nem visto que haja semelhantes; mas a respeito de todas essas cousas… mostrou-se ingrata, devolvendo com tantos males tantos bens que recebeu. …os tormentos, as violências, as injustiças… perpetrados no seio dessas gentes, são tão grandes, tão enormes, tão públicos e tão notórios, que as lágrimas e os prantos e o sangue de tantos inocentes… já estão aos ouvidos de todas as nações estrangeiras… de onde se seguirá para os que ouvem um grande escândalo, um grande horror...
frei Bartolomé de Las Casas (1542)[1]

A imagem que se criou das 'sociedades inferiores' no século XIX derivou, em grande parte, da atitude positivista, anti-religiosa e não metafísica de Comte, Darwin ou Spencer. Foram necessários o progresso do pensamento metafísico europeu no começo do século XX, o renascimento religioso, as inúmeras conquistas da Psicologia profunda, da poesia, da Física Quântica, para se chegar a comprender o horizonte espiritual dos 'primitivos', a estrutura de seus símbolos, a função de seus mitos, a maturidade de sua mística. É necessário [...] pensar em termos de História Universal e forjar valores espirituais universais.
Mircea Eliade (1967) [2]

A Terra dos Mil Povos
História indígena do Brasil contada por um índio 
Kaka Werá Jecupé                                
Editora Fundação Petrópolis, São Paulo, SP 1998)
(excertos da 3a. Edição

Uma palavra pode proteger ou destruir uma pessoa. Seu poder é o mesmo de uma flecha no arco. Um nome é um tom, um espírito nomeado. Nomear é manifestar a parte céu de um ser na parte terra.
Toda palavra possui um espírito. É uma vida entonada.
E a Vida é o espírito em movimento. Um ritmo.
O espírito é uma música, uma fala sagrada que se expressa no corpo; e este, por sua vez, é a flauta, o veículo por onde flui o canto que expressa o  ser-luz-som-música, que tem sua morada no coração.
Esta flauta é feita da urdidura de quatro pequenas almas que precisam estar afinadas para melhor expressar o fogo sagrado que da vitalidade, capacidade criativa e realizadora.
Por isso fez-se a dança: para afinar todos os espíritos pequenos do ser, para que estes cantem sua música no ritmo do coração da Mãe Terra, que dança no ritmo do coração do Pai Sol que, por sua vez, dança no ritmo do Amor Incondicional.
O Que Tem Muitos Nomes, O Grande Espírito, desdobra-se em muitos, e o ser humano faz o caminho do dobrar-se para a unificação com O Grande Espírito.
Assim é que tudo pulsa e flui.


Tudo entoa: pedra, planta, bicho, gente, céu, terra...
Os tons se dividem por afinidade, formando clãs, que formam tribos, que habitam aldeias, constituindo nações e muitas línguas diferentes, ou seja, muitas formas de perceber a realidade sagrada.

Cada nação ou clã, guarda em sua memória cultural a memória dos pais e da interação destes.  
Atualmente existem no Brasil 206 povos indígenas, provenientes de 4 troncos culturais básicos: tupy, karib, e aruak.
Tupy, Guarani, Tupinambá, Tapuia, Xavante, Kamayurá, Yanomami, Kadiweu, Txukarramãe, Kaingang, Krahô, Kalapalo, Yawalapiti... são nomes que pulsam no chão dessa terra hoje chamada Brasil.
O índio mais antigo dessa terra se autodenomina tupy que na língua abanhaenga significa som, barulho (tu) e , assento (py) ou seja: o som do pé, o som assentado, entonado.


Do ponto de vista tupy os povos nativos eram os Tupinambá (filhos da Terra); os Tupy-Guarani (filhos do Sol) e os tapuia (filhos da Lua). Os tapuia eram nômades, de muitos dialetos, e seguiram a tradição do Sonho. Os tupy dividiram-se em Tupinambá e Tupy-Guarani e trouxeram dos anciães as tradições do Sol e da Lua. O clã Tupinambá, tinha ascendência ligada ao Sol e se tornou expansivo. A outra parte, os Tupy-Guarani, tinha ascendência ligada à Lua e tornou-se mais introspectiva.
Os Tupinambá saíram de suas aldeias e fundando novas aldeias foram encontrando, pelos caminhos que iam abrindo, as tribos da terra as quais chamavam tapuia.
Os tapuia eram muitos povos, brotados de diversos lugares: cerrado, litoral, serras.
Na visão dos Tupinambá, os tapuia precisavam acordar seus nomes. Já os Tupy-Guarani achavam que eles precisavam recordar seus nomes.

Os tapuia tinham mais consciência da dimensão do sonho, e muitas tribos desenvolveram seu aprendizado a partir das lições que o sonho traz.
A história indígena do Brasil transcorre, então, com a germinação destas três qualidades de povos.


Para aqueles que não conseguiram superar suas lições e desafios, foram deixados os meios para poderem vencer a si mesmos, separando as boas e más heranças dos seus caminhos antepassados.
Tupã deixou sua essência em nós para exercitarmos a arte de criar e destruir.


O Senhor do Fogo Sagrado criou a roça para o nascimento e desenvolvimento do Homem-Lua e da Mulher-Sol. A partir desse momento, surge a raiz das culturas dos povos da floresta.
Jakairá, a divindade responsável pelo espírito, pela substância, pela neblina e pela fumaça, impôs desafios para o amadurecimento das tribos. O grande desafio de Jakairá (que se manifesta ora como neblina ou bruma, ora como grande amanhecer circundado de relâmpagos em vestes rosadas) foi a coragem para a liberdade. Coragem de penetrar em seu sagrado mistério.
Tempos depois, o medo foi se tornando um espírito que se agarrou nos ossos do humano, gerando formas de escravidão.
A descoberta da Noite gerou outros medos, pois, dela, quando se olha de um determinado ponto, parece que o Homem-Lua e a Mulher-Sol estão separados. E desse ponto nasceram três espíritos: o do Sono, o do Sonho e o da Ilusão. E cada um desses filhos da Noite criou para as futuras gerações a sua realidade.


Tupã... sua benção, colocada na orelha esquerda chama-se inteligência, e na orelha direita, sabedoria. Na cabeça humana fez sua pintura, chamada pensamento, que outra coisa não é senão raios e trovões sagrados em ação, cujo corpo são as águas das emoções e dos desejos que se movimentam para o Criar e o Destruir. 
Para aqueles que não conseguiram superar suas lições e desafios, foram deixados os meios para poderem vencer a si mesmos, separando as boas e más heranças de seus antepassados.
Tupã deixou sua essência em nós para exercitarmos a arte de criar e destruir.


O sonho é o momento sagrado em que o espírito está livre e purifica o corpo físico, sua morada; viaja até a morada ancestral; muitas vezes, voa pela aldeia e, algumas vezes, vai até as margens do futuro, assim como caminha pelas trilhas do passado.
Alguns seres humanos desenvolveram a arte de manter o espírito mais vivo e se tornaram ponte entre os mundos apartados. Esses eram os pajés. Os que procuravam ensinar a arte de andar pela Noite.

Quando se caminha para a consciência do espírito, caminha-se para a consciência da tribo.
A tribo surgiu para o ser conseguir suportar sua Grande Noite.
Somos o eco dos ancestrais, dos quais temos a visão das estrelas, que são nossos avós e irmãos mais velhos. Amanhã seremos estrelas e também deixaremos ecos.
Tribo e espírito caminham juntos. São sinônimos.
O criar é conseqüência do aprender que, por sua vez, é o motivo pelo qual nosso ser-som se corporificou.

Ao longo do processo de colonização da terra chamada Brasil, os Tupinambá fizeram a passagem para sua morada espiritual (a Terra sem Males) pelo caminho da Batalha. Os Tupy-Guarany buscaram a Terra sem Males pelo caminho da Oração. Os tapuia seguiram o Sonho. E os que mais preservaram a tradição do Sonho foram os Xavante.

Os Xavante sonhavam com a respiração do branco ansiosos por conquista e explorações. Sonhavam com a tarefa de pacificar o branco, pois, conforme as civilizações imperiais e republicanas do mundo progrediram em sua ciência e tecnologia, avançava também sua capacidade de violentar a Terra, de maneira a colocar em risco, não mais os povos da floresta, mas também a Mãe, agora de uma terra estéril e de uma árvore seca pela raiz fraca, em um poente que começara a cobrir a vida com um tom pálido.
Mas nenhum sonho, para um índio, fica em vão.
O Tempo faz a ligação do ritmo, que é coordenado pelo coração.

Desde que chegaram as Grandes Canoas dos Ventos, tentam banir o espírito do Tempo, algemando-o no pulso do homem da civilização, onde a palavra corre sem espírito, sem cumprimento, pois, palavra e espírito estão separados. A voz sai morta, porém, recheada de maquilagem para dar impressão de vida.

A maior contribuição dos povos da floresta para o homem branco é a prática de ser uno com a natureza interna de si. Aprender a ler os ensinamentos registrados no movimento da natureza interna do Ser. Tudo se desdobra de uma fonte única, formando uma trama sagrada de relações e inter-relações, de modo que tudo se conecta a tudo. Homens, árvores, serras, rios e mares, são um só corpo com ações interdependentes.
Esse conceito só pode ser compreendido através do coração, ou seja, da natureza interna de cada um.

A prática ensinada nas aldeias é a arte do domínio sobre si mesmo: o desenvolvimento da capacidade de lidar com as dores físicas e morais, invocando sempre o espírito da sabedoria. 
O domínio sobre si mesmo começa na infância: as crianças são conscientizadas da diferença entre alimentação e gula.
Os ritos de passagem criança-jovem-adulto têm por finalidade o domínio dos reflexos, sentidos, desejos e paixões. Nunca, tais ritos, tiveram ou têm por premissa a repressão, e sim, o desafio de viver no espaço da liberdade. Por isso, não se castiga os filhos, mas se estimula sua liberdade individual e conta-se com o ciclo do Tempo e das estações internas do ser para, aos poucos, mostrar-se a responsabilidade da liberdade.

Somos uma interconexão de muitos.
Cabe-nos discernir, por entre nossos muitos, os verdadeiros e os falsos.
Quando principiamos a discernir, tornamo-nos um txukarramãe (guerreiro sem armas).
E quando descobrimos que muitas coisas que fazem parte de nós, foram geradas por nossas próprias mãos para defendermo-nos do mundo externo, então, descobrimos a raiz.
Percebemos que nosso espírito manchou-se de criações impróprias de si-mesmo, que acontecem nA Grande Noite da Alma, quando não se invoca a sabedoria da coruja -que vê no escuro.
E passamos a discernir o que temos feito de nós mesmos, como tem sido nossa dança no mundo.
Quando se pára de criar inimigos, extingue-se a necessidade de armas.
Esse é o risco do percurso do ser-música.
Purificar-se... isso faz parte do caminho do guerreiro.
A solidão e as sombras fazem parte da tarefa. É justamente com elas que se intensificará o ponto de maturação do espírito.
Quando as raízes mergulharem de novo na terra, a árvore terá força para compreender as sombras que o dia gera.
E é natural. Acontece.
Durante A Grande Noite da Alma. 


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[1] ‘Brevíssima Relação da Destruição das Índias
cit.O Paraíso Destruído - A sangrenta história da conquista da América Espanhola
vol. 230 pág 170
coleção LP&M Pocket, LP&M Editores, Porto Alegre, RS 2001

[2] ‘Yoga- Imortalidade e Liberdade’ pgs. 9,10 e 14
editora Palas Athena 3a. ed. São Paulo, SP, 2004



Terça-feira, Maio 10, 2011

El artista y los otros

Elvira Lindo

El Pais, 08/05/2011*


"Soy un artista". Así, sin que le temblara la voz, se nos definió el cocinero al presentarnos sus platos. Con esas palabras que tanto peligro tienen. Era como mi querido Joaquín Reyes haciendo de Galliano. Mis compañeros de mesa, gente brillante, humilde y de buen corazón, no hicieron ningún comentario sobre semejante sentencia, pero de manera inconsciente, mientras nos íbamos comiendo de un solo bocado los platos sobreexplicados por el maître, cada uno de nosotros sentía, casi sin llegar a dar forma a ese pensamiento, que no hay nada que despierte más la vergüenza ajena que la sobrevaloración de uno mismo. Hay individuos a los que no les basta con ser buenos cocineros, incluso cocineros cojonudos, no, ellos tienen que alcanzar la categoría de artistas, y es ahí donde se despeñan muchos, porque el grande de verdad prefiere ser nombrado por el nombre sencillo y sagrado de su oficio: sastre, modista, cocinero, escritor, músico, dibujante. Artista es una distinción que te deben conceder los demás. El resultado de la pretenciosidad del cocinero fue que la comida nos pareció escasilla y nos sobraron las explicaciones que interrumpían nuestra conversación. La cuenta estuvo a la altura de la consideración que sobre sí mismo tenía el artista. Lo primero que pensamos tanto mi marido, Antonio, como yo ante su imprudente discurso fue, ¿usted sabe la cantidad de talento real que emana de las cabezas de esta mesa? Y es que esa noche nos habíamos reunido con un querido amigo argentino, Víctor Minces, que desde hace años, como ocurre con los científicos españoles, se dedica a prestar su inteligencia a los Estados Unidos. Pero no es sólo inteligencia a secas lo que debe adornar la mente de un investigador, hay otros factores, la creatividad, la imaginación para plantear hipótesis. Mi amigo Víctor investigó un tiempo en Nueva York, que es donde yo lo conocí, con gorra rastafari, varios piercings y un apetito impaciente, poco adecuado para las pildorillas de la nouvelle cuisine. De Nueva York saltó a San Diego y allí, además de convertirse en un apasionado surfista, se ha embarcado en un proyecto que nos contaba junto a Alexander Khalil, el padre de la asombrosa idea. Alexander, un hombre joven y dulce, nos contó que tras doctorarse en musicología decidió convertirse en profesor de música en una escuela. Él había sentido siempre interés por las músicas étnicas, en especial, por el "Gamelán", procedente de Java y Bali, y que está emparentado en su filosofía con el budismo. En la música gamelán intervienen metalófonos, xilófonos, tambores y gongs, y nunca es interpretada por un solista: la esencia de esta melodía es que no puede existir si no se toca en conjunto y lo que interpreta un músico depende de lo que toca el de al lado. Nuestro nuevo amigo Alexander observó cómo los niños con dislexia o con ese déficit de atención tan ligado a la hiperactividad, mejoraban de sus males a fuerza de tener que interpretar una música para la cual la sincronía es fundamental. De esta manera, que parece mágica, un niño que no sabe concentrarse aprende a prestar atención gracias a una melodía en la cual es tan importante el compañero como tú. El maestro Alexandre observó cómo esos niños mejoraban también en otras disciplinas escolares. Escribió entonces su experiencia y se presentó con sus resultados al departamento de neurociencia de la Universidad de San Diego. Le aceptaron su proyecto de investigación y a él se unió mi amigo Víctor, que parece haber nacido para una aventura así, en la que se mezclan la tierna y moldeable mente de los niños y la capacidad milagrosa de la música para mejorar males que hasta el momento sólo han sabido paliarse con pastillas. Es asombrosa la cantidad de niños americanos que toman medicamentos para todos aquellos trastornos relacionados con el déficit de atención. No es posible creer que haya tal porcentaje de niños diagnosticados como hiperactivos. No puedo evitar pensar que tenga algo que ver con la educación, con una nula enseñanza de la paciencia y la contención, con esa desconfianza hacia los adultos que les enseñan los padres, que crean para ellos burbujas que los separan del mundo y de todos esos pedófilos en potencia en que nos han convertido a los adultos amantes de los niños. Y ahora, resulta que algo tan primario, tan esencial en la condición humana como es el ritmo, puede ayudar, no sólo haciendo desaparecer los síntomas de la dispersión patológica, como haría una pastilla, sino flexibilizando la manera de estar en la vida. En realidad, cuánto necesitaríamos los humanos, a cualquier edad y de cualquier condición, tener una clase de gamelán diaria; un maestro bueno y paciente que nos enseñara que las personas más perspicaces son aquellas que saben ponerse en el lugar del otro. Hace unos días aparecía una curiosa estadística: la palabra más usada en los últimos años en las letras de canciones pop ha sido "yo". YO. Una sobredimensión que puede hacernos más infelices pero, sin duda, más ciegos y más tontos. La inteligencia y la paz de espíritu se conquistan con todos los pronombres. Antes de irnos, alabamos al cocinero para que durmiera tranquilo. Pobre, tenía un yo tan enorme que era incapaz de oler la presencia del talento ajeno.
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Sexta-feira, Abril 29, 2011

Impunidade-Imunidade

Nairo de Souza Vargas*
(excerto)

“… padecemos de um mito de impunidade que nos faz um enorme mal. Essa triste e profunda verdade retrata uma má e deficiente estruturação social do arquétipo do Pai. …é uma necessidade básica de nossa espécie nos estruturarmos quanto a leis e princípios de valor, padrões de comportamento moral.
Desenvolver uma ética é uma necessidade arquetípica, e se isso não for feito, ou for feito de maneira inadequada e distorcida, o ser humano - e num sentido mais amplo, uma cultura - corre sério risco de distorções, desestruturações e ou aniquilamento.
São tantas e tão comuns as impunidades em nosso país que parece já temos perdido inclusive a capacidade de nos indignarmos diante de situações absurdas e revoltantes.
Políticos e líderes de prestígio são conhecidos não somente pela desonestidade e corrupção, como pela desfaçatez com que mentem e se omitem quando questionados a respeito de suas falhas. …temos delinquências e corrupções em demasia e, o que é mais grave, de maneira freqüentemente impune e sem despertar firme desaprovação e repúdio social, quase que de maneira consentida - na pior das hipóteses, muitas vezes elogiada. …grave psicopatia social, resultante de deficiente estruturação patriarcal, que nos torna vítimas de uma cegueira moral que nos leva sombriamente compactuarmos com a desonestidade e a imoralidade, eufemisticamente chamadas de esperteza e malandragem. …essa terrível sombra de nossa cultura.
É necessário que essa realidade se torne consciente e que as pessoas se dêem conta dessa grave distorção que atinge, lesa e destrói nossa cultura, nos ameaçando a todos.”
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*In Junguiana, revista da SBPA n.18 -Mitos e Lendas da América Latina- "Impunidade-Imunidade e o arquétipo do Pai entre nós" pág. 107/ 110

http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/04/28/protogenes-luta-para-salvar-a-satiagraha-viva-o-brasil

Sábado, Julho 31, 2010

A lógica do crescimento sem controle

por Muhammad Yunus
(professor de Economia e fundador dos empreendimentos Grameen e prêmio Nobel da Paz de 2006)

excertos da edição francesa (“VERS UM NOUVEAU CAPITALISME” Éditions Jean-Claude Lattès, 2008) da obra do professor Yunnus publicada originalmente em Inglês com o título “CREATING A WORLD WITHOUT POVERTY” (ed. Public Affairs-Perseu Books, 2007). A tradução da obra original encontra-se disponível em Português ("UM MUNDO SEM POBREZA- A empresa social e o futuro do capitalismo" editora Ática, 2008)

“Acredito no livre-mercado como fonte de inspiração e liberdade para todos, e não como uma arquitetura desenhada para levar à decadência uma pequena parcela de seus participantes. Os países mais ricos do mundo beneficiam-se enormemente da energia criativa, da eficácia e do dinamismo gerado pelo livre-mercado. O capitalismo, certamente, é próspero. Mas nem todos lucram. Para 60% da população mundial destinam-se apenas 6% da receita global. Metade da população mundial sobrevive com dois (2) dólares ou menos por dia.
Nota do Tradutor - "Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água corrente e mais de dois bilhões não conhecem condições sanitárias mínimas"  EL PAÍS, 'Agujeros Negros Del Planeta', Domingo,01.08.2010
Por que?
O comércio mundial pode ser comparado a uma auto-estrada com centenas de pistas que se entrecruzam por sobre a superfície terrestre. Se esta estrada é livremente acessível a todos, sem semáforos, sem limites de velocidade e nem sequer faixas demarcando os espaços, ela acabará sendo monopolizada pelos gigantescos caminhões provenientes das economias mais desenvolvidas. Os pequenos veículos, as camionetes e até mesmo (como em muitos lugares) as carrocinhas, serão obrigados a sair da estrada.
O impacto negativo de um capitalismo de pista-única torna-se, cada vez mais dolorosamente, visível à cada dia.
Segundo a clássica Teoria da Firma, um ser unidimensional, o empreendedor, desconectado do resto da Vida (das emoções, do social, da religião, da política...), tem um único objetivo: maximizar o lucro. Com o apoio de outros seres unidimensionais, os investidores, este empreendedor consagra-se ao jogo da concorrência em um mundo unidimensional, onde a vitória não será alcançada senão mediante a obtenção do lucro. E como esta teoria a todos convenceu de que a busca pelo lucro constitui o melhor meio de trazer felicidade à espécie humana, todos procuram reproduzir a teoria transformando-se em seres unidimensionais. A realidade, entretanto, é muito diferente da teoria. Os indivíduos não são unidimensionais; são apaixonadamente multidimensionais. Suas emoções, crenças, prioridades, motivações de comportamento... podem ser comparadas às milhões de nuances suscetíveis de serem reproduzidas pelas três cores primárias.

NT - "A existência de inúmeras instituições de caridade sustentadas pela generosidade pessoal demonstra que os seres humanos também são movidos por impulsos altruístas. Essa dimensão desinteressada não desempenha papel relevante na teoria econômica. Uma visão distorcida da natureza humana é a falha fatal que torna incompleta e inexata a teoria do pensamento econômico. Os seres humanos têm o desejo natural de ajudar uns aos outros. É uma força motivadora tão poderosa quanto o desejo de lucro. Causar impacto na vida das pessoas é, em todos os aspectos, tão inspirador e gratificante quanto ganhar dinheiro, ou até mais. O empreendedor de negócios-sociais é, muitas vezes, tão obcecado com o sucesso quanto o empresário movido pelo lucro. A possibilidade de mudar o mundo para melhor pode nos deixar acordados durante a noite, na expectativa das coisas que haveremos de tentar quando o trabalho recomeçar na manhã seguinte." (IN Yunus, Muhammad "Criando um negócio-social" pág. 100 ed. Elsevier, RJ 2010 trad. Leonardo Abramowicz)

Minha experiência demonstra e me fez saber que, por seu poder e agilidade, o livre-mercado pode dar respostas eficazes para problemas como, por exemplo, a pobreza, a degradação ambiental... Mas esta resposta tenderá sempre a ser equivocada quando formulada nos termos de objetivos exclusivamente financeiros.
Vivemos em um mundo onde as desigualdades causam enormes sofrimentos a bilhões de pessoas que possuem absolutamente nada. Um crescimento econômico acelerado parece ser a solução exigida pela desigualdade, sobretudo nos países em desenvolvimento; mas tal saída é portadora, em si mesma, de catástrofes. A esse duplo constrangimento podemos denominar: o dilema do crescimento.
N.T - Segundo a mundialmente reconhecida e respeitada física e ativista social indiana Vandana Shiva: “... os economistas refletem sobre o mundo de um modo inusitado! Eles presumem o mundo, presumem um mundo irreal e, então, destroem o mundo real para que suas suposições ganhem vida! E é isto que estamos presenciando ao ver o colapso da economia financeira... Certas taxas de retorno... se você espera obtê-las em todo tipo de investimento, você destruirá determinados sistemas naturais, você destruirá a auto-suficiência."
Quais são as origens desse doloroso dilema?
Acredito que tudo decorre do fato de nosso sistema econômico estar baseado em uma visão distorcida e incompleta, tanto a respeito da sociedade como da existência humana.
Eis a visão do Capitalismo à qual se apegam os economistas, os administradores de empresa, os comentaristas e outros especialistas que escrevem sobre o mundo dos negócios – ela cabe em uma casca de noz:

  • uma vida melhor para todas as pessoas, assim como uma redução do sofrimento associado às desigualdades, passa por um crescimento econômico sustentável
  • o crescimento econômico origina-se, unicamente, de investimentos de capitais obtidos em mercados competitivos e concorrenciais
  • os investidores somente se deixam seduzir por empreendimentos destinados a maximizar a rentabilidade do capital investido
  • a rentabilidade do capital não pode ser maximizada senão por empreendimentos destinados a fazer da maximização do lucro seu único objetivo
Esta lógica nos leva a concluir que o ser humano é uma criatura unidimensional, para a qual a única fonte de felicidade, satisfação e motivação é o dinheiro e, portanto, a maximização do lucro é tudo.
Colocada nestes termos, esta lógica é irrefutável. Mas quando olhamos para o mundo real, os resultados obtidos estão muito longe de serem satisfatórios.
As empresas dos países desenvolvidos maximizam seus lucros; os recursos são dissipados; o meio-ambiente é saqueado; e as gerações futuras deverão estar preparadas para um amanhã melancólico. À medida que esta filosofia capitalista se espalha, nações em desenvolvimento como a China e a Índia vêem crescer sua própria classe de empreendedores e homens de negócio a maximizar lucros, tal qual o fazem seus modelos norte-americanos e europeus. E disso resulta centena de milhões de pessoas doentes e mortas prematuramente por causa da poluição e o problema da mudança climática que, rapidamente, se aproxima de um ponto sem volta.
Aparentemente alguma coisa está errada nesta lógica "irrefutável" de crescimento sem controle.

N.T - "Como psiquiatra, atendi executivos incapazes de entender que processos fogem ao controle e não chegam aos resultados previstos nas planilhas porque interagimos com pessoas e outros sistemas vivos. Não posso negar o humano (...) Temos de fazer gestões para que a cabeça cartesiana seja complementada pela cabeça complexa, que acolhe não só o cartesiano, como também o sistêmico - conceito mecanicista que ainda modela o discurso de gestão das atividades produtivas humanas. Complexidade vem do Latim 'complexus', que significa 'o que está tecido junto'. Portanto, não deve ser confundido com 'complicação'. A administração tradicional baseia-se no modelo cartesiano, sequencial, repetitivo, mas pelo pensamento linear é impossível compreender o mundo globalizado. O raciocínio linear aumenta a produtividade industrial por meio da automação, mas não resolve o problema do desemprego e da exclusão social gerados por ela, porque são questões não-lineares." Humberto Mariotti, em "Nem oito nem oitenta", CARTA CAPITAL núm.607 pp. 44/45 04 ago. 2010
Reflitamos a respeito das consequências desta lógica para os recursos naturais. ?Se realmente é benéfico e razoável para um empreendimento buscar, acima de tudo, maximizar o lucro, de que modo ele deve se comportar diante de uma fonte de riqueza natural? Deve, evidentemente, seguir a máxima: "O primeiro a chegar é o primeiro a oferecer". Aquele que dispuser de recursos financeiros ou poder militar para apoderar-se e controlar a fontes de matéria-prima haverá de fazê-lo.
Tais recursos poderão contribuir para manter um empreendimento que maximiza o lucro de seus proprietários, os quais, por sua vez, são os únicos a possuir poder legítimo para determinar como esses recursos serão distribuídos.
É, pois, precisamente isto o que ocorre atualmente com o petróleo, o gás natural, o carvão, as terras agricultáveis, a pesca, a madeira, os minerais e, até mesmo, a água. Relativamente à distribuição destes recursos naturais os empreendimentos privados, na maior parte dos casos, atuam conforme seus próprios interesses. Em outros casos, colaboram com o Estado. Em nenhum dos casos há espaço ao redor da mesa para a população cuja vida depende da distribuição dos recursos em questão. Se nos basearmos na lógica acima descrita, por que deveríamos levar em conta essas pessoas? Em quê suas necessidades podem contribuir para a maximizar o lucro?
Esta dinâmica, este sistema, onde a espoliação possibilita às nações e às empresas controlarem os recursos naturais de modo a utilizá-los para maximizar lucros imediatos haveria de perdurar se a vida sobre a Terra não estivesse se aproximando de uma situação crítica. Considerando que atualmente os recursos não-renováveis estão em níveis próximos ao esgotamento -uma vez que a demanda por eles continua a crescer- e que os perigos associados à mudança climática se fazem presentes, o mais ardoroso dos capitalistas deve aceitar o fato de que obter lucro não é o único argumento a ser considerado na avaliação dos negócios.
Como os acionistas poderão desfrutar de seus dividendos se o ar estiver muito perigoso para a respiração?

Creio, com firmeza, na liberdade individual.
Cada indivíduo sobre a Terra possui capacidades ilimitadas.
Uma sociedade deve objetivar a construção de um ambiente onde todos possam expressar plenamente sua energia criativa. Para formar um ambiente assim, é vital um máximo de liberdade pessoal.
Mas, também, nós possuímos consciência de que existem circunstâncias nas quais se faz necessário sacrificar uma parte de nossa liberdade individual para preservarmos nossa segurança e nossa felicidade a longo prazo. É por este motivo que possuímos um código de trânsito. Parar diante de um sinal vermelho certamente reduz um pouco minha liberdade pessoal. Mas se não existissem semáforos haveria de ser muito arriscado dirigir um veículo. Um condutor imprudente poderia atravessar um cruzamento sem observar se outros veículos se aproximam da intersecção. Nas sociedades civilizadas, a maior parte das pessoas aceita de bom grado que suas diversas atividades sejam exercidas dentro de um quadro regulamentar: de modo a permitir uma melhoria na qualidade da vida de todos, sem fazer pesar uma carga excessiva sobre os indivíduos.
Nas circunstâncias atuais, creio ter chegado o  momento de considerarmos um limite para a nossa liberdade de consumo ou desperdício de recursos naturais.
Inicialmente, eu exortaria as nações a repensar e a restringir voluntariamente o consumo. Se tal medida se revelar ineficaz eu adotaria uma postura, ainda que a contragosto, em favor de restrições específicas e obrigatórias, via acordos ou tratados internacionais.

Desperdiçando recursos naturais não-renováveis como o petróleo, o gás natural e o carvão -além do oxigênio e da água- os habitantes dos países mais ricos estão esgotando ativos universalmente compartilháveis -patrimônio da humanidade. Desse modo, por um lado estão a impedir que as gerações futuras possam dispor de uma existência satisfatória e, por outro  privam os habitantes dos países em desenvolvimento de alcançar melhor nível de vida. Em algum momento, ainda que os habitantes dos países em desenvolvimento estejam habilitados a consumir em níveis semelhantes aos norte-americanos e europeus, lhes será impossível fazê-lo uma vez que os recursos necessários para tal lhes terá sido confiscado para usufruto dos países mais desenvolvidos. Concordo com as palavras de Thomas Jefferson quanto a fazer da "busca pela felicidade" um direito humano inalienável. ?Mas será que isto significa que alguns têm o direito de dissipar todos os recursos naturais, esgotá-los de modo a nada deixar para a sobrevivência dos demais e, por assim fazer, deixar para o futuro um planeta inviável para nossos filhos e netos?
O desejo de consumir sem se preocupar com os custos sociais a longo prazo é uma consequência perigosa da busca pela maximização do lucro.
Quando o lucro é a única prioridade, esquecemos o meio ambiente, a saúde pública e a sustentabilidade do crescimento. Somente uma questão é prioritária: ?como comprar e vender mais produtos? ou ?como obter  uma margem de lucro superior à do ano anterior?
Se tais produtos são verdadeiramente necessários e benéficos para todos é um assunto fora do debate.
Neste rumo insano no sentido da maximização do lucro, perdemos de vista a qualidade do meio ambiente, a manutenção do crescimento e a saúde dos consumidores.
Atualmente a voz do mercado é a voz do capitalismo tradicional, que pressiona o consumidor a adquirir o mais rapidamente possível as vantagens dos produtos e serviços. E o canal de propagação desta voz é a Publicidade, o Marketing e os veículos de Comunicação (como as revistas de Moda, Decoração, Automóveis, Turismo...). A mensagem é uma só:
"-Compre mais! Compre mais! E compre já!"
E nos perguntamos porquê tantos jovens são alienados e porquê as pessoas mais velhas se acham insatisfeitas com suas vidas.

N.T. Observe-se o hábito -algo esquizofrênico, cínico certamente- dos telejornais diários em, um dia, exibir reportagens incensando o frenesi do 'maravilhoso mundo das compras' e, no dia seguinte, exibir entrevistas pedagógicas destinadas a ensinar o consumidor a livrar-se de dívidas contraídas por conta de gastos efetuados acima de suas possibilidades...
A única voz que se faz ouvir no mercado é a das empresas 'lucro-maziximizantes', que produzem os bens necessários para alcançar seus objetivos mediante a obtenção de níveis de consumo cada maiores. Esta voz acompanha o consumidor a todo instante e onde quer que ele esteja: lendo os jornais, escutando o rádio, assistindo a televisão ou navegando pela Internet. Um fluxo ininterrupto de mensagens o empurra em direção ao consumo. Para persuadir o consumo de seus produtos, em todas as situações e momentos possíveis, os fabricantes não se cansam de criar métodos para atrair a atenção do consumidor. Para que comprem mais, os consumidores são incentivados a trocar seus produtos mais antigos por outros mais recentes ou, simplesmente, 'comprar por comprar'.
A promoção do consumo é a força que sustenta o crescimento econômico. Porém, ?esse crescimento leva em conta a sustentabilidade de um desenvolvimento em escala mundial? E quanto à redução do consumo supérfluo? Os valores daqueles que outra coisa não fazem senão lutar o tempo todo pelo domínio econômico, esses valores, não convém discuti-los?

Sinto, profundamente, que necessitamos de uma voz-paralela capaz de se fazer ouvir no mercado com propostas diferentes:
"-Questione-se: você realmente precisa desse produto?"
"-Quanto mais você consome, mais contribui para esgotar o planeta."
"-Preste atenção nas embalagens: é um desperdício?"
"-Compre de fabricantes que recomprem sua compra anterior e a reciclem."
"-Torne seus espaços existenciais socialmente responsáveis."
"-Você se comporta como um cidadão do mundo?"


As vozes dos empreendimentos lucro-maximizantes, ao incentivar 'mais consumo', acabam por levar o consumidor a destruir sua saúde. Uma voz-paralela anunciará mensagens sobre o prazer de ter boa saúde e sobre o que é necessário fazer para obtê-la: o que convém ingerir ou não, como ajudar as crianças a se interessarem pela nutrição, que exercícios e atividades favorecem o bem-estar, porquê o sustento produzido localmente é melhor para todos...
Alguns haverão de me repreender por 'recorrer à Propaganda para manipular as pessoas' ou, ainda, por 'tentar transformar a sociedade em uma espécie de babá-repressora das pessoas, de modo fazê-las adotar um comportamento adequado.' Bem, as pessoas já são intensamente bombardeadas e importunadas pela propaganda - o são, porém, pelos empreendimentos lucro-maximizantes. Estes, de modo a realizar seus objetivos, despendem somas gigantescas para lisonjear os consumidores. Necessitamos de uma voz-paralela que apresente, ao menos, uma proposta mais sensata.

Solucionando o dilema do crescimento
?O quê fazer para enfrentar o dilema do crescimento - isto é:
o conflito entre a absoluta necessidade de melhorar a vida de bilhões de pessoas pobres X a necessidade, também absoluta, de impedir que o crescimento econômico provoque a destruição de nosso meio ambiente.
Devemos realizar progressos em frentes simultâneas.
Depois da Revolução Industrial, os países ricos utilizaram sem nenhuma restrição os recursos não-renováveis. É chegada a hora de decidir como repartir o restante desses recursos.
Ouvimos frequentemente que as economias do Sul com forte crescimento econômico (a Índia, a China, o Brasil, a Indonésia e algumas economias africanas) não devem almejar possuir o mesmo estilo de consumo que as economias do Norte. Estes países devem desenvolver um modo de vida mais próspero e mais respeitoso em relação ao meio ambiente, tanto quanto hão de desenvolver sistemas de valores que lhes sejam próprios. É verdade. Mas isto não será suficiente. Não devemos opor dois sistemas, dois modos de vida, um para o Norte e outro para o Sul. Isto não é sustentável e nem realizável. O mundo inteiro deverá convergir para um novo modo, um novo estilo de vida.

As diversidades culturais, históricas e religiosas continuarão, evidentemente a impor suas marcas sobre nossos estilos de vida. Mas como os produtos são mundiais, as empresas operam mundialmente e a tecnologia da informação transforma o mundo em uma única cidade, não é possível manter a atual divisão entre Norte e Sul. O que faz o Norte tem consequências no Sul e vice-versa. O Norte, logo começará a sentir os impactos dos danos causados ao planeta pelos habitantes do Sul. Estamos todos no mesmo barco e, portanto, devemos aprender a viver de modo responsável - ou naufragamos todos.
Devemos refletir juntos, de modo a delinear as características fundamentais de um modo de vida mundialmente sustentável; para onde direcionarmos nossa tecnologia, nossas inovações e criatividade. A tecnologia caminhará na direção que determinarmos. Se não pensarmos em algum lugar, a tecnologia não irá para esse lugar. Mas se desejarmos caminhar em alguma direção, a tecnologia tomará esse rumo. Se desenvolvermos um projeto de modo de vida em escala mundial, tecnologias necessárias para tanto começarão a ser desenvolvidas. Entretanto, infelizmente, os esforços atuais seguem na direção oposta.

A criatividade dos países desenvolvidos está centrada na propagação, para o Sul, do modo de vida malsão e não sustentável dos países do Norte. Graças a engenhosas campanhas de marketing, as grandes corporações da América do Norte e da Europa conseguem influenciar todo o planeta. Até mesmo pessoas que moram nos lugares mais isolados dos países pobres desejam beber Coca-Cola ou Pepsi, fumar Marlboro, usar detergentes Omo e usar dentifrícios Crest. Os moradores destas localidades sonham em utilizar estes produtos e desfrutar da "vida agradável" que eles proporcionam. É por isso que uma voz alternativa legítima deve se fazer ouvir e ser compreendida no mercado mundial.

A regulamentação pública, levada a cabo em nível nacional e internacional, também deve ter um papel importante na solução do dilema do crescimento.
A dinâmica da concorrência faz com que as empresas interessadas e preocupadas com as questões sócio-ambientais estejam em desvantagem perante outras, poluidoras e pouco ou nada interessadas nestas questões: países sem restrições ambientais e trabalhistas atraem estas empresas, pelo baixo custo operacional que oferecem. Este é o motivo pelo qual é essencial um acordo internacional, fixando as linhas mestras da proteção sócio-ambiental. Este é a única maneira capaz de evitar uma competição entre governos interessados em atrair empresas mediante a oferta de um 'caminho mais barato' para os negócios.

O problema da pobreza mundial encontra-se estreitamente vinculado aos atuais desafios da humanidade, e englobam aqueles que podem ameaçar a sobrevivência de nossa espécie. Torna-se indispensável uma forma de capitalismo que possibilite um novo tipo de empreendimento: o negócio-social.

Fazer o Bem não é mais, simplesmente, uma questão de bem-estar espiritual. É uma questão de sobrevivência. Para nós mesmos e para as gerações futuras.

Um negócio-social é um empreendimento criado para empreendedores interessados em alcançar -para além do lucro em seus negócios tradicionais- um objetivo social específico. Funciona conforme os princípios de gestão em curso nos empreendimentos tradicionais ou clássicos. Um negócio-social visa cobrir, ao menos, a totalidade de seus custos. Persegue seu objetivo mediante um preço ou honorários por seus produtos ou serviços prestados. Para os fundamentalistas do livre-mercado a proposição acima poderá parecer uma blasfêmia: a idéia de um empreendimento caracterizado por objetivos outros que não a busca pelo lucro máximo. Contudo, a liberdade dos mercados não será ameaçada se todos os empreendimentos deixarem de buscar a máxima lucratividade possível. Mas o capitalismo poderá, certamente, ser aperfeiçoado. Um negócio-social é uma sociedade de negócios que não distribui dividendos e oferece seus serviços ao preço-mínimo necessário para garantir sua auto-sustentabilidade. Critério a partir do qual seu desempenho é avaliado, o objetivo de um negócio-social é a geração de benefícios sociais para o público alvo de sua ação direta.

Enquanto pressionamos nossos políticos a tomarem decisões rigorosas para salvar o planeta, eu peço, sobretudo aos jovens, que reflitam sobre: "o quê vamos fazer no Futuro?"
Vamos diferenciar por entre os produtos que consumimos aqueles que são 'vermelhos', 'amarelos' e 'verdes' em função de sua contribuição ('negativa' ou 'positiva') à sobrevivência do planeta?
Vamos adotar princípios que possibilitem à cada geração deixar o planeta em melhores condições?
Vamos ter certeza de que nosso estilo de vida não coloca em perigo a vida de outras pessoas?

Aprender a imaginar em que mundo vamos viver é um tema inexistente em nossas escolas.
Preparamos nossos estudantes para uma disciplina ou carreira, mas não os educamos para pensar quê tipo de mundo eles desejam construir. Toda escola e universidade deveria criar um curso centrado nesta proposta: pedir a cada aluno que prepare uma lista de seus 'desejos para o mundo' e explique para a classe os motivos de suas escolhas. Outros alunos poderão sustentar suas idéias, propor alternativas melhores ou contestá-las. Então, todos poderão discutir maneiras de criar o mundo que imaginam, o que concretamente é possível fazer, os obstáculos a superar de modo a criar as parcerias, organizações, conceitos, esquemas e planos de ação necessários para promover seus objetivos.
Este curso poderá ser muito interessante.
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