por Muhammad Yunus
(professor de Economia e fundador dos empreendimentos Grameen e prêmio Nobel da Paz de 2006)
excertos da edição francesa (“VERS UM NOUVEAU CAPITALISME” Éditions Jean-Claude Lattès, 2008) da obra do professor Yunnus publicada originalmente em Inglês com o título “CREATING A WORLD WITHOUT POVERTY” (ed. Public Affairs-Perseu Books, 2007). A tradução da obra original encontra-se disponível em Português ("UM MUNDO SEM POBREZA- A empresa social e o futuro do capitalismo" editora Ática, 2008)
“Acredito no livre-mercado como fonte de inspiração e liberdade para todos, e não como uma arquitetura desenhada para levar à decadência uma pequena parcela de seus participantes. Os países mais ricos do mundo beneficiam-se enormemente da energia criativa, da eficácia e do dinamismo gerado pelo livre-mercado. O capitalismo, certamente, é próspero. Mas nem todos lucram. Para 60% da população mundial destinam-se apenas 6% da receita global. Metade da população mundial sobrevive com dois (2) dólares ou menos por dia.
Nota do Tradutor - "Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água corrente e mais de dois bilhões não conhecem condições sanitárias mínimas" EL PAÍS, 'Agujeros Negros Del Planeta', Domingo,01.08.2010
Por que?
O comércio mundial pode ser comparado a uma auto-estrada com centenas de pistas que se entrecruzam por sobre a superfície terrestre. Se esta estrada é livremente acessível a todos, sem semáforos, sem limites de velocidade e nem sequer faixas demarcando os espaços, ela acabará sendo monopolizada pelos gigantescos caminhões provenientes das economias mais desenvolvidas. Os pequenos veículos, as camionetes e até mesmo (como em muitos lugares) as carrocinhas, serão obrigados a sair da estrada.
O impacto negativo de um capitalismo de pista-única torna-se, cada vez mais dolorosamente, visível à cada dia.
Segundo a clássica Teoria da Firma, um ser unidimensional, o empreendedor, desconectado do resto da Vida (das emoções, do social, da religião, da política...), tem um único objetivo: maximizar o lucro. Com o apoio de outros seres unidimensionais, os investidores, este empreendedor consagra-se ao jogo da concorrência em um mundo unidimensional, onde a vitória não será alcançada senão mediante a obtenção do lucro. E como esta teoria a todos convenceu de que a busca pelo lucro constitui o melhor meio de trazer felicidade à espécie humana, todos procuram reproduzir a teoria transformando-se em seres unidimensionais. A realidade, entretanto, é muito diferente da teoria. Os indivíduos não são unidimensionais; são apaixonadamente multidimensionais. Suas emoções, crenças, prioridades, motivações de comportamento... podem ser comparadas às milhões de nuances suscetíveis de serem reproduzidas pelas três cores primárias.
NT - "A existência de inúmeras instituições de caridade sustentadas pela generosidade pessoal demonstra que os seres humanos também são movidos por impulsos altruístas. Essa dimensão desinteressada não desempenha papel relevante na teoria econômica. Uma visão distorcida da natureza humana é a falha fatal que torna incompleta e inexata a teoria do pensamento econômico. Os seres humanos têm o desejo natural de ajudar uns aos outros. É uma força motivadora tão poderosa quanto o desejo de lucro. Causar impacto na vida das pessoas é, em todos os aspectos, tão inspirador e gratificante quanto ganhar dinheiro, ou até mais. O empreendedor de negócios-sociais é, muitas vezes, tão obcecado com o sucesso quanto o empresário movido pelo lucro. A possibilidade de mudar o mundo para melhor pode nos deixar acordados durante a noite, na expectativa das coisas que haveremos de tentar quando o trabalho recomeçar na manhã seguinte." (IN Yunus, Muhammad "Criando um negócio-social" pág. 100 ed. Elsevier, RJ 2010 trad. Leonardo Abramowicz)
Minha experiência demonstra e me fez saber que, por seu poder e agilidade, o livre-mercado pode dar respostas eficazes para problemas como, por exemplo, a pobreza, a degradação ambiental... Mas esta resposta tenderá sempre a ser equivocada quando formulada nos termos de objetivos exclusivamente financeiros. Vivemos em um mundo onde as desigualdades causam enormes sofrimentos a bilhões de pessoas que possuem absolutamente nada. Um crescimento econômico acelerado parece ser a solução exigida pela desigualdade, sobretudo nos países em desenvolvimento; mas tal saída é portadora, em si mesma, de catástrofes. A esse duplo constrangimento podemos denominar: o dilema do crescimento.
N.T - Segundo a mundialmente reconhecida e respeitada física e ativista social indiana Vandana Shiva: “... os economistas refletem sobre o mundo de um modo inusitado! Eles presumem o mundo, presumem um mundo irreal e, então, destroem o mundo real para que suas suposições ganhem vida! E é isto que estamos presenciando ao ver o colapso da economia financeira... Certas taxas de retorno... se você espera obtê-las em todo tipo de investimento, você destruirá determinados sistemas naturais, você destruirá a auto-suficiência."
Quais são as origens desse doloroso dilema?
Acredito que tudo decorre do fato de nosso sistema econômico estar baseado em uma visão distorcida e incompleta, tanto a respeito da sociedade como da existência humana.
Eis a visão do Capitalismo à qual se apegam os economistas, os administradores de empresa, os comentaristas e outros especialistas que escrevem sobre o mundo dos negócios – ela cabe em uma casca de noz:
- uma vida melhor para todas as pessoas, assim como uma redução do sofrimento associado às desigualdades, passa por um crescimento econômico sustentável
- o crescimento econômico origina-se, unicamente, de investimentos de capitais obtidos em mercados competitivos e concorrenciais
- os investidores somente se deixam seduzir por empreendimentos destinados a maximizar a rentabilidade do capital investido
- a rentabilidade do capital não pode ser maximizada senão por empreendimentos destinados a fazer da maximização do lucro seu único objetivo
Esta lógica nos leva a concluir que o ser humano é uma criatura unidimensional, para a qual a única fonte de felicidade, satisfação e motivação é o dinheiro e, portanto, a maximização do lucro é tudo.
Colocada nestes termos, esta lógica é irrefutável. Mas quando olhamos para o mundo real, os resultados obtidos estão muito longe de serem satisfatórios.
As empresas dos países desenvolvidos maximizam seus lucros; os recursos são dissipados; o meio-ambiente é saqueado; e as gerações futuras deverão estar preparadas para um amanhã melancólico. À medida que esta filosofia capitalista se espalha, nações em desenvolvimento como a China e a Índia vêem crescer sua própria classe de empreendedores e homens de negócio a maximizar lucros, tal qual o fazem seus modelos norte-americanos e europeus. E disso resulta centena de milhões de pessoas doentes e mortas prematuramente por causa da poluição e o problema da mudança climática que, rapidamente, se aproxima de um ponto sem volta.
Aparentemente alguma coisa está errada nesta lógica "irrefutável" de crescimento sem controle.
N.T - "Como psiquiatra, atendi executivos incapazes de entender que processos fogem ao controle e não chegam aos resultados previstos nas planilhas porque interagimos com pessoas e outros sistemas vivos. Não posso negar o humano (...) Temos de fazer gestões para que a cabeça cartesiana seja complementada pela cabeça complexa, que acolhe não só o cartesiano, como também o sistêmico - conceito mecanicista que ainda modela o discurso de gestão das atividades produtivas humanas. Complexidade vem do Latim 'complexus', que significa 'o que está tecido junto'. Portanto, não deve ser confundido com 'complicação'. A administração tradicional baseia-se no modelo cartesiano, sequencial, repetitivo, mas pelo pensamento linear é impossível compreender o mundo globalizado. O raciocínio linear aumenta a produtividade industrial por meio da automação, mas não resolve o problema do desemprego e da exclusão social gerados por ela, porque são questões não-lineares." Humberto Mariotti, em "Nem oito nem oitenta", CARTA CAPITAL núm.607 pp. 44/45 04 ago. 2010
Reflitamos a respeito das consequências desta lógica para os recursos naturais. ?Se realmente é benéfico e razoável para um empreendimento buscar, acima de tudo, maximizar o lucro, de que modo ele deve se comportar diante de uma fonte de riqueza natural? Deve, evidentemente, seguir a máxima: "O primeiro a chegar é o primeiro a oferecer". Aquele que dispuser de recursos financeiros ou poder militar para apoderar-se e controlar a fontes de matéria-prima haverá de fazê-lo. Tais recursos poderão contribuir para manter um empreendimento que maximiza o lucro de seus proprietários, os quais, por sua vez, são os únicos a possuir poder legítimo para determinar como esses recursos serão distribuídos.
É, pois, precisamente isto o que ocorre atualmente com o petróleo, o gás natural, o carvão, as terras agricultáveis, a pesca, a madeira, os minerais e, até mesmo, a água. Relativamente à distribuição destes recursos naturais os empreendimentos privados, na maior parte dos casos, atuam conforme seus próprios interesses. Em outros casos, colaboram com o Estado. Em nenhum dos casos há espaço ao redor da mesa para a população cuja vida depende da distribuição dos recursos em questão. Se nos basearmos na lógica acima descrita, por que deveríamos levar em conta essas pessoas? Em quê suas necessidades podem contribuir para a maximizar o lucro?
Esta dinâmica, este sistema, onde a espoliação possibilita às nações e às empresas controlarem os recursos naturais de modo a utilizá-los para maximizar lucros imediatos haveria de perdurar se a vida sobre a Terra não estivesse se aproximando de uma situação crítica. Considerando que atualmente os recursos não-renováveis estão em níveis próximos ao esgotamento -uma vez que a demanda por eles continua a crescer- e que os perigos associados à mudança climática se fazem presentes, o mais ardoroso dos capitalistas deve aceitar o fato de que obter lucro não é o único argumento a ser considerado na avaliação dos negócios.
Como os acionistas poderão desfrutar de seus dividendos se o ar estiver muito perigoso para a respiração?
Creio, com firmeza, na liberdade individual.
Cada indivíduo sobre a Terra possui capacidades ilimitadas.
Uma sociedade deve objetivar a construção de um ambiente onde todos possam expressar plenamente sua energia criativa. Para formar um ambiente assim, é vital um máximo de liberdade pessoal.
Mas, também, nós possuímos consciência de que existem circunstâncias nas quais se faz necessário sacrificar uma parte de nossa liberdade individual para preservarmos nossa segurança e nossa felicidade a longo prazo. É por este motivo que possuímos um código de trânsito. Parar diante de um sinal vermelho certamente reduz um pouco minha liberdade pessoal. Mas se não existissem semáforos haveria de ser muito arriscado dirigir um veículo. Um condutor imprudente poderia atravessar um cruzamento sem observar se outros veículos se aproximam da intersecção. Nas sociedades civilizadas, a maior parte das pessoas aceita de bom grado que suas diversas atividades sejam exercidas dentro de um quadro regulamentar: de modo a permitir uma melhoria na qualidade da vida de todos, sem fazer pesar uma carga excessiva sobre os indivíduos.
Nas circunstâncias atuais, creio ter chegado o momento de considerarmos um limite para a nossa liberdade de consumo ou desperdício de recursos naturais.
Inicialmente, eu exortaria as nações a repensar e a restringir voluntariamente o consumo. Se tal medida se revelar ineficaz eu adotaria uma postura, ainda que a contragosto, em favor de restrições específicas e obrigatórias, via acordos ou tratados internacionais.
Desperdiçando recursos naturais não-renováveis como o petróleo, o gás natural e o carvão -além do oxigênio e da água- os habitantes dos países mais ricos estão esgotando ativos universalmente compartilháveis -patrimônio da humanidade. Desse modo, por um lado estão a impedir que as gerações futuras possam dispor de uma existência satisfatória e, por outro privam os habitantes dos países em desenvolvimento de alcançar melhor nível de vida. Em algum momento, ainda que os habitantes dos países em desenvolvimento estejam habilitados a consumir em níveis semelhantes aos norte-americanos e europeus, lhes será impossível fazê-lo uma vez que os recursos necessários para tal lhes terá sido confiscado para usufruto dos países mais desenvolvidos. Concordo com as palavras de Thomas Jefferson quanto a fazer da "busca pela felicidade" um direito humano inalienável. ?Mas será que isto significa que alguns têm o direito de dissipar todos os recursos naturais, esgotá-los de modo a nada deixar para a sobrevivência dos demais e, por assim fazer, deixar para o futuro um planeta inviável para nossos filhos e netos?
O desejo de consumir sem se preocupar com os custos sociais a longo prazo é uma consequência perigosa da busca pela maximização do lucro.
Quando o lucro é a única prioridade, esquecemos o meio ambiente, a saúde pública e a sustentabilidade do crescimento. Somente uma questão é prioritária: ?como comprar e vender mais produtos? ou ?como obter uma margem de lucro superior à do ano anterior?
Se tais produtos são verdadeiramente necessários e benéficos para todos é um assunto fora do debate.
Neste rumo insano no sentido da maximização do lucro, perdemos de vista a qualidade do meio ambiente, a manutenção do crescimento e a saúde dos consumidores.
Atualmente a voz do mercado é a voz do capitalismo tradicional, que pressiona o consumidor a adquirir o mais rapidamente possível as vantagens dos produtos e serviços. E o canal de propagação desta voz é a Publicidade, o Marketing e os veículos de Comunicação (como as revistas de Moda, Decoração, Automóveis, Turismo...). A mensagem é uma só:
"-Compre mais! Compre mais! E compre já!"
E nos perguntamos porquê tantos jovens são alienados e porquê as pessoas mais velhas se acham insatisfeitas com suas vidas.
N.T. Observe-se o hábito -algo esquizofrênico, cínico certamente- dos telejornais diários em, um dia, exibir reportagens incensando o frenesi do 'maravilhoso mundo das compras' e, no dia seguinte, exibir entrevistas pedagógicas destinadas a ensinar o consumidor a livrar-se de dívidas contraídas por conta de gastos efetuados acima de suas possibilidades...
A única voz que se faz ouvir no mercado é a das empresas 'lucro-maziximizantes', que produzem os bens necessários para alcançar seus objetivos mediante a obtenção de níveis de consumo cada maiores. Esta voz acompanha o consumidor a todo instante e onde quer que ele esteja: lendo os jornais, escutando o rádio, assistindo a televisão ou navegando pela Internet. Um fluxo ininterrupto de mensagens o empurra em direção ao consumo. Para persuadir o consumo de seus produtos, em todas as situações e momentos possíveis, os fabricantes não se cansam de criar métodos para atrair a atenção do consumidor. Para que comprem mais, os consumidores são incentivados a trocar seus produtos mais antigos por outros mais recentes ou, simplesmente, 'comprar por comprar'.
A promoção do consumo é a força que sustenta o crescimento econômico. Porém, ?esse crescimento leva em conta a sustentabilidade de um desenvolvimento em escala mundial? E quanto à redução do consumo supérfluo? Os valores daqueles que outra coisa não fazem senão lutar o tempo todo pelo domínio econômico, esses valores, não convém discuti-los?
Sinto, profundamente, que necessitamos de uma voz-paralela capaz de se fazer ouvir no mercado com propostas diferentes:
"-Questione-se: você realmente precisa desse produto?"
"-Quanto mais você consome, mais contribui para esgotar o planeta."
"-Preste atenção nas embalagens: é um desperdício?"
"-Compre de fabricantes que recomprem sua compra anterior e a reciclem."
"-Torne seus espaços existenciais socialmente responsáveis."
"-Você se comporta como um cidadão do mundo?"
As vozes dos empreendimentos lucro-maximizantes, ao incentivar 'mais consumo', acabam por levar o consumidor a destruir sua saúde. Uma voz-paralela anunciará mensagens sobre o prazer de ter boa saúde e sobre o que é necessário fazer para obtê-la: o que convém ingerir ou não, como ajudar as crianças a se interessarem pela nutrição, que exercícios e atividades favorecem o bem-estar, porquê o sustento produzido localmente é melhor para todos...
Alguns haverão de me repreender por 'recorrer à Propaganda para manipular as pessoas' ou, ainda, por 'tentar transformar a sociedade em uma espécie de babá-repressora das pessoas, de modo fazê-las adotar um comportamento adequado.' Bem, as pessoas já são intensamente bombardeadas e importunadas pela propaganda - o são, porém, pelos empreendimentos lucro-maximizantes. Estes, de modo a realizar seus objetivos, despendem somas gigantescas para lisonjear os consumidores. Necessitamos de uma voz-paralela que apresente, ao menos, uma proposta mais sensata.
Solucionando o dilema do crescimento
?O quê fazer para enfrentar o dilema do crescimento - isto é:
o conflito entre a absoluta necessidade de melhorar a vida de bilhões de pessoas pobres X a necessidade, também absoluta, de impedir que o crescimento econômico provoque a destruição de nosso meio ambiente.
Devemos realizar progressos em frentes simultâneas.
Depois da Revolução Industrial, os países ricos utilizaram sem nenhuma restrição os recursos não-renováveis. É chegada a hora de decidir como repartir o restante desses recursos.
Ouvimos frequentemente que as economias do Sul com forte crescimento econômico (a Índia, a China, o Brasil, a Indonésia e algumas economias africanas) não devem almejar possuir o mesmo estilo de consumo que as economias do Norte. Estes países devem desenvolver um modo de vida mais próspero e mais respeitoso em relação ao meio ambiente, tanto quanto hão de desenvolver sistemas de valores que lhes sejam próprios. É verdade. Mas isto não será suficiente. Não devemos opor dois sistemas, dois modos de vida, um para o Norte e outro para o Sul. Isto não é sustentável e nem realizável. O mundo inteiro deverá convergir para um novo modo, um novo estilo de vida.
As diversidades culturais, históricas e religiosas continuarão, evidentemente a impor suas marcas sobre nossos estilos de vida. Mas como os produtos são mundiais, as empresas operam mundialmente e a tecnologia da informação transforma o mundo em uma única cidade, não é possível manter a atual divisão entre Norte e Sul. O que faz o Norte tem consequências no Sul e vice-versa. O Norte, logo começará a sentir os impactos dos danos causados ao planeta pelos habitantes do Sul. Estamos todos no mesmo barco e, portanto, devemos aprender a viver de modo responsável - ou naufragamos todos.
Devemos refletir juntos, de modo a delinear as características fundamentais de um modo de vida mundialmente sustentável; para onde direcionarmos nossa tecnologia, nossas inovações e criatividade. A tecnologia caminhará na direção que determinarmos. Se não pensarmos em algum lugar, a tecnologia não irá para esse lugar. Mas se desejarmos caminhar em alguma direção, a tecnologia tomará esse rumo. Se desenvolvermos um projeto de modo de vida em escala mundial, tecnologias necessárias para tanto começarão a ser desenvolvidas. Entretanto, infelizmente, os esforços atuais seguem na direção oposta.
A criatividade dos países desenvolvidos está centrada na propagação, para o Sul, do modo de vida malsão e não sustentável dos países do Norte. Graças a engenhosas campanhas de marketing, as grandes corporações da América do Norte e da Europa conseguem influenciar todo o planeta. Até mesmo pessoas que moram nos lugares mais isolados dos países pobres desejam beber Coca-Cola ou Pepsi, fumar Marlboro, usar detergentes Omo e usar dentifrícios Crest. Os moradores destas localidades sonham em utilizar estes produtos e desfrutar da "vida agradável" que eles proporcionam. É por isso que uma voz alternativa legítima deve se fazer ouvir e ser compreendida no mercado mundial.
A regulamentação pública, levada a cabo em nível nacional e internacional, também deve ter um papel importante na solução do dilema do crescimento.
A dinâmica da concorrência faz com que as empresas interessadas e preocupadas com as questões sócio-ambientais estejam em desvantagem perante outras, poluidoras e pouco ou nada interessadas nestas questões: países sem restrições ambientais e trabalhistas atraem estas empresas, pelo baixo custo operacional que oferecem. Este é o motivo pelo qual é essencial um acordo internacional, fixando as linhas mestras da proteção sócio-ambiental. Este é a única maneira capaz de evitar uma competição entre governos interessados em atrair empresas mediante a oferta de um 'caminho mais barato' para os negócios.
O problema da pobreza mundial encontra-se estreitamente vinculado aos atuais desafios da humanidade, e englobam aqueles que podem ameaçar a sobrevivência de nossa espécie. Torna-se indispensável uma forma de capitalismo que possibilite um novo tipo de empreendimento: o negócio-social.
Fazer o Bem não é mais, simplesmente, uma questão de bem-estar espiritual. É uma questão de sobrevivência. Para nós mesmos e para as gerações futuras.
Um negócio-social é um empreendimento criado para empreendedores interessados em alcançar -para além do lucro em seus negócios tradicionais- um objetivo social específico. Funciona conforme os princípios de gestão em curso nos empreendimentos tradicionais ou clássicos. Um negócio-social visa cobrir, ao menos, a totalidade de seus custos. Persegue seu objetivo mediante um preço ou honorários por seus produtos ou serviços prestados. Para os fundamentalistas do livre-mercado a proposição acima poderá parecer uma blasfêmia: a idéia de um empreendimento caracterizado por objetivos outros que não a busca pelo lucro máximo. Contudo, a liberdade dos mercados não será ameaçada se todos os empreendimentos deixarem de buscar a máxima lucratividade possível. Mas o capitalismo poderá, certamente, ser aperfeiçoado. Um negócio-social é uma sociedade de negócios que não distribui dividendos e oferece seus serviços ao preço-mínimo necessário para garantir sua auto-sustentabilidade. Critério a partir do qual seu desempenho é avaliado, o objetivo de um negócio-social é a geração de benefícios sociais para o público alvo de sua ação direta.
Enquanto pressionamos nossos políticos a tomarem decisões rigorosas para salvar o planeta, eu peço, sobretudo aos jovens, que reflitam sobre: "o quê vamos fazer no Futuro?"
Vamos diferenciar por entre os produtos que consumimos aqueles que são 'vermelhos', 'amarelos' e 'verdes' em função de sua contribuição ('negativa' ou 'positiva') à sobrevivência do planeta?
Vamos adotar princípios que possibilitem à cada geração deixar o planeta em melhores condições?
Vamos ter certeza de que nosso estilo de vida não coloca em perigo a vida de outras pessoas?
Aprender a imaginar em que mundo vamos viver é um tema inexistente em nossas escolas.
Preparamos nossos estudantes para uma disciplina ou carreira, mas não os educamos para pensar quê tipo de mundo eles desejam construir. Toda escola e universidade deveria criar um curso centrado nesta proposta: pedir a cada aluno que prepare uma lista de seus 'desejos para o mundo' e explique para a classe os motivos de suas escolhas. Outros alunos poderão sustentar suas idéias, propor alternativas melhores ou contestá-las. Então, todos poderão discutir maneiras de criar o mundo que imaginam, o que concretamente é possível fazer, os obstáculos a superar de modo a criar as parcerias, organizações, conceitos, esquemas e planos de ação necessários para promover seus objetivos.
Este curso poderá ser muito interessante.
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