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Sexta-feira, Agosto 12, 2011

Pra quê se preocupar!


Pra quê se preocupar?
Homero Mattos Jr.

Existem histórias que se contam mundialmente sobre a humanidade. Estão nos filmes de Hollywood ou na televisão americana, a televisão dominante. Para mim, um dos grandes desafios é contar histórias alternativas, que nos permitam imaginar as coisas de uma outra maneira. Temos que ser capazes de dizer que há outros mundos possíveis de se imaginar e, principalmente, sonhar.
Ariel Dorfman
escritor chileno autor de Para ler o Pato Donald


Melhor é a Quietude, sinceramente creio. Mas diante da eventual impossibilidade de permitir que As Coisas sigam por si mesmas o caminho que lhes é próprio, melhor, então, sobre o caminho imposto às Coisas, refletir.
Penso sobre a Propaganda tal qual Muhammad Yunus pensa sobre o Mercado: não há nada de errado com a Propaganda em si mesma, mas, sim, com os modos de utilizá-la. E destes modos o mais preocupante me parece ser o cinismo. Refiro-me à atitude anything goes tão maciça e devastadoramente em voga nas últimas três décadas.
É certo que, atualmente, não só a Propaganda é cínica (ela nada mais faz do que seguir o trend'...). Porém, o poder de propagação impõe à Propaganda (tanto quanto ao Jornalismo) reflexões mais cuidadosas. Por exemplo entre muitos, a atual campanha de uma companhia de seguros a veicular a mensagem: -Pra quê se preocupar? ...!?!... Pôxa! Poucas expressões poderiam ser mais eficazes no sentido de contribuir para uma perpetuação da consciência retrógrada (quando não, inexistente) face ao imperativo de mudarmos nossos hábitos e paradigmas individualistas que, hoje visivelmente, ameaçam a vida humana sobre a Terra. Além de cinismo, não é por demais inconsequente sugerir às pessoas algo do tipo: não se preocupe com o Efeito Estufa caso possa desfrutar o privilégio de usufruir um (fantástico?...) aparelho de ar condicionado?
Mais do que seguir um trend penso que os publicitários deveriam ousar formar um trend, capaz de contribuir para uma elevação do nível da consciência coletiva. E ao dizer ousar não tenho vistas à vontade nem tampouco a criatividade dos profissionais da Criação, mas à duradoura mesmice a que se entregam -na imensa maioria das vezes- os Clientes, a Diretoria e o Atendimento -estes últimos poucas vezes dispostos a contra-argumentar com os primeiros. Contudo, tal ortodoxia é compreensível. Mas não aceitável.
Genericamente, o dilema moral dos publicitários é o mesmo de todos nós: ser ou não ser.
Especificamente, o campo moral dos publicitários é o mesmo dos jornalistas: qual o sentido (i.e direção) e qual o significado (i.e espaço) do conteúdo a ser propagado?
Bem, mas sobre isso, e mais, já disse Olivieri Toscani em A Publicidade É Um Cadáver Que Nos Sorri.
Não sei se a Propaganda é um cadáver. Mas, receio, se alguns publicitários ainda não o são, estão em vias de tornarem-se.
Talvez algum dia a Propaganda faça, também -tal qual hoje está a ocorrer em toda parte, sua Revolução.
A ver.


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